Mestre Livreiro na Feira do Rolo

Não teve estudo, mas é Mestre Livreiro na escola da vida

Não chegou a frequentar escola. Mas em Bauru é Mestre Livreiro numa feira que, aparentemente, nada tem a ver com cultura letrada e literatura.

Cultura de livros usados. Bauru
Carioca da banca, o Mestre Livreiro. Fonte: Mafuá do HPA

Pense numa feira de grande movimentação social, que ocupe vários quarteirões de ruas ainda pavimentadas por aqueles antigos paralelepípedos irregulares em toda a sua extensão, e que esteja localizada na parte velha da cidade, nos arredores de uma estação ferroviária abandonada há muito tempo.

Acrescente a esse cenário também uma quantidade sem fim de mercadorias diversas, espalhadas desordenadamente sobre bancas e barracas de estruturas improvisadas, ou mesmo expostas sobre lonas estendidas no chão, entre o vai e vem de muita gente por todo lado fazendo um alarido interminável a procura de tudo o que se possa imaginar.

De equipamentos eletrônicos a parafusos e ferramentas, de remédios na base de ervas medicinais a brinquedos, roupas, móveis, calçados, utilidades domésticas, artesanato, em suma, coisas de todos os tipos, sejam novas, usadas, falsificadas, sejam enferrujadas e também muitas quinquilharias.

Feira do Rolo. Livros usadosO cenário não deixa de ser visivelmente caótico, mas, em meio ao emaranhado de objetos e bugigangas, o que chama atenção é uma gama de livros usados a céu aberto

Bem diferente da comodidade das tradicionais bibliotecas e livrarias, ali, não há estrutura alguma que ofereça o mínimo sequer de uma ambiência tranquila, silenciosa e confortável para escolher um bom livro.
No entanto, é nesse lugar – a famosa Feira do Rolo na cidade de Bauru (S.P.) – onde se pode achar títulos dos mais variados gêneros literários, obras raras e preciosas que dificilmente são encontradas nas grandes livrarias ou sites de venda de livros. Além disso, os preços são módicos, e ainda com direito de pechinchar no ato da compra.

E se a literatura está presente nesse tipo de feira, é por causa de uma figura pitoresca conhecida como Carioca da Banca, o Mestre Livreiro

Seu nome é Francisco Carlos Jaloto que, 20 anos atrás, começou vendendo discos de vinil nesse local. Logo depois, incluiu também os livros que hoje são o carro-chefe de vendas da sua banca. Tudo que o Mestre Livreiro queria era ficar próximo de pessoas mais instruídas que ele. Por isso, optou por vender livros, a fim de “beber na fonte” do conhecimento dessa gente.

Literatura. Feira do Rolo, Bauru
À esquerda, Rafa Kondlatsch. À direita, Henrique (Mafuá do HPA)

“Quem vende cachaça, lida com cachaceiro… vender livros é a coisa mais deliciosa deste mundo, pois você lida com pessoas cultas”, diz Jaloto.

Por trás dessa afirmação, há uma história de luta e sacrifício de quem encontrou nos livros um jeito de manter o seu sustento com dignidade e, ao mesmo tempo, adquirir conhecimento por meio de uma vasta literatura que passa por suas mãos.
Para Jaloto, a oportunidade de estudar passou longe, e a sua formação foi mesmo na escola da vida. Teve que trabalhar ainda menino, a partir dos sete anos de idade.

1 pensamento sobre “Não teve estudo, mas é Mestre Livreiro na escola da vida

  1. O livreiro de rua de Bauru é uma das figuras mais cativantes que a cidade do sanduíche possui. Ele toca sua vida vendendo livros nas calçadas da cidade e se diz muito feliz com o que consegue. Um imensa figura humana.

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