Disco de vinil, mais vivo do que nunca

Disco de vinil, bem ao gosto do seu paladar

Até porque a percepção que temos da música está associada ao sistema auditivo. Ademais, vale dizer que a música digital também possui o seu suporte material, seja o celular, o computador, seja o aparelho MP3, os tablets, etc.

Só que nesses casos, tais artefatos carregariam a característica da impessoalidade, explica Portugal (2013). Tendo em vista a sua vasta capacidade de armazenar arquivos de diversas naturezas, eles acabariam tirando aquela sensação singular “do toque” e do contato com a música, o que já não ocorreria com o vinil.

Disco de vinil, gosto pela música
O gosto pela música é melhor no disco de vinil

De fato, numa sociedade multitarefa é comum sentarmos em frente ao computador e abrirmos vários arquivos de música para tocar, enquanto checamos ao mesmo tempo e-mails, conversamos com amigos em chats, redes sociais, entre inúmeras outras coisas.

Além disso, com os dispositivos móveis de hoje em dia, é possível escutar música durante a realização de qualquer tarefa: andando, trabalhando, estudando, cozinhando, dirigindo, independentemente de lugar, hora ou momento.

Seria justamente o modo de utilizar esses novos suportes da era digital que estaria provocando a dispersão da escuta e, consequentemente, a diminuição de uma experiência sonora mais envolvente, salienta Queiróz (2012).

Em um mundo apressado e impaciente, o gosto pelo fazer e a ânsia pela ação levam muitos indivíduos a uma pobreza de experiências quase inacreditável. Todas elas são artificiais e nenhuma se conclui isoladamente, uma vez que as pessoas logo entram em outra com muita precipitação, complementa Dewey (2010).

Assim, o que se diz ser experiência fica tão disperso e misturado que nem mereceria ser chamado por esse nome, conclui o autor.

Diferentemente disso, ao escutar um disco de vinil, é preciso parar; concentrar-se para colocar a agulha na faixa; virar o lado do disco.

Agulha na faixa do disco de vinil
A música ganha vida com o vinil

Em suma, é um tempo que impede a realização de muitas tarefas paralelas e nos ancora diante da corrente frenética do consumo atual de música, exemplifica a doutora em sociologia Mariana Trajano, em entrevista para a revista Continente (2012).

É a partir desse momento então que a música assumiria a sua materialização, convertendo-se em algo palpável e numa experiência sensorial bastante significativa.

Quando se para, e se dispõe a ouvir um disco de vinil, é a hora também em que se começa a admirar os seus mais diversos elementos paratextuais:

  • As imagens e o tamanho da capa, a contracapa e o encarte (maiores do que a de outros suportes sonoros existentes), o peso do Lp, a sua disposição física com os seus lados A e B, os textos de apresentação, e assim por diante.
    Todos esses elementos acabariam introduzindo uma carga simbólica que ampliaria a dimensão auditiva para todos os outros sentidos do corpo humano.

Há de se lembrar que os objetos materiais não são usados somente para cumprir funções práticas indispensáveis, mas, principalmente, para desempenhar funções simbólicas que, na verdade, são pré-condições determinantes para o exercício das primeiras, na opinião de Gonçalves (2007).

Nesses termos, o melhor a se fazer é colocar um vinil para tocar:

O som de vinil embala a imaginação

  • Vozes e acordes instrumentais caminharão até aos seus ouvidos, irão mexer nas memórias em busca de emoções guardadas pelo tempo. É a música ganhando vida por meio da lembrança de lugares, de pessoas e de experiências passadas.
  • Sentimentos começarão a aflorar, por causa do charme todo especial vindo de um famoso “chiadinho”. É o som da agulha que percorre as ranhuras do disco, dando a impressão mais real não só da gravação, mas também do momento da audição. O que é bem diferente daquela sensação artificial proveniente dos CDs e das músicas digitais.

A música do vinil é verdadeira, porque se pode tocar na sua melodia:

  • Ao pegar um Lp e colocá-lo para rodar no toca-discos, também pegamos histórias de momentos passados e colocamos para rodar na passarela da nossa mente.
    Do mesmo modo acontece com o ato de virar o disco do seu lado A para o lado B. Não é um gesto qualquer, mas o de um revirar nos pensamentos tirando-os para dançar no ritmo da nossa imaginação.
  •  Dessa maneira, o som vai tomando forma, inclusive quando seguramos a agulha do toca-discos para, cuidadosamente, posicioná-la sobre a faixa do vinil, no ponto exato em que a música se inicia. É como se, no fluxo constante das nossas recordações, segurássemos todas elas para, depois, posicioná-las no tempo exato em que cada uma delas teve seu começo.
  • A concretude de todas essas experiências sensoriais nos envolve de tal modo que podemos até sentir o cheiro de encontros, desencontros, amores, desilusões, paixões, desenganos, alegrias, tristezas e tantos outros casos presentes ou passados. Eles se exalariam de dentro de capas e de plásticos que protegem os Lps, deixando marcas de histórias espalhadas por todo o ar do ambiente.
  • Em meio a tantas sensações sinestésicas, a realidade parece mesmo se confundir com tudo aquilo que a música representa ou significa. As imagens da capa, da contracapa e do encarte do Lp, – em proporções bem maiores do que a de outros suportes sonoros -, saltam aos olhos.
    São fotos, pinturas, desenhos e trabalhos gráficos, com uma riqueza de detalhes que fazem dessa contemplação uma quase imersão entre ouvinte, artista e o disco de vinil.
  • A impressão que se tem é a de que estamos enxergando, literalmente, a música sendo tocada, vivenciando as letras escritas no encarte, a história do disco e de todo o contexto no qual ele fora gravado. Enfim, é como se estivéssemos, lado a lado, com os músicos que produziram e gravaram o Lp.

Após chegarmos nesse tamanho nível de experiência sensorial com o vinil, certamente já estaremos prontos também para degustá-lo, bem ao gosto daquele velho e bom vinho de uma safra especial. Ou você duvida disso?

Referências:

CONTINENTE. Retorno do vinil expõe apego à materialidade . Seção: Tecnologia.nº 134, p. 48-49. Recife (PE), fevereiro de 2012.
Dewey, John. Arte Experiência de Como . São Paulo: Martins Fontes, 2010.
GONÇALVES, José Rinaldo S. Antropologia DOS Objetos: Coleções, e Patrimónios Museus. Rio de Janeiro: Iphan, 2007.
PORTUGAL, Tarcila Martins. Colecionador de discos de vinil na era digital . Universidade de Brasília, 2013.
Queiroz, Rafael Pinto Ferreira de. Materialidade e Escuta dedicada: uma Experiência estética atraves do disco de vinil. 5º Congresso de Estudantes de pós-graduação e comunicação (CONECO) – Universidade Federal Fluminense, 2012.

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