Ex-integrante da Legião revela suas memórias

Ex-integrante da Legião Urbana faz um retrospecto de suas memórias numa autobiografia reveladora.

Dado Villa-Lobos, memórias de um legionário

Leia partes do livro

Sobrinho-neto do compositor clássico Heitor Villa-Lobos. O seu nome é Eduardo Dutra Villa-Lobos, mas todos o conhecem mesmo como Dado, o ex-guitarrista da banda que é considerada referência do rock nacional.

Dado Villa-Lobos: Memórias de um Legionário. Esse livro é uma narrativa em primeira pessoa na qual o músico faz uma retrospectiva desde a sua infância até os eventos mais importantes da sua vida. Sobretudo os catorze anos como integrante da banda e as suas experiências ao lado de Renato Russo, Marcelo Bonfá e Renato Rocha (o Negrete).

Aliás, bem mais que o próprio Dado, é Renato Russo a personagem central que se destaca entre as 256 páginas dessa obra. E críticas casuais não lhe faltaram. Devido à grande amizade e admiração pelo ex-companheiro, Dado se sentiu bastante à vontade para alfinetar o temperamento difícil e explosivo, a relação com as drogas e o vício contumaz do ex-vocalista pelo álcool.

Classificada por Dado como ataques de alcoolismo, a dependência etílica de Renato o transformava em um sujeito insuportável, egoísta e manipulador. Ela se acentuava, geralmente, quando a banda viajava para tocar em algum lugar.
Numa dessas ocasiões, durante a divulgação do disco V pela região nordeste do país, Renato passava noites inteiras bebendo, indo dormir já pela manhã, sendo preciso acordá-lo a muito custo. O que lhe deixava praticamente sem condições para fazer os shows.

[…]Ele havia entrado em uma onda etílica como eu nunca tinha visto, a ponto de ficar horas e horas com um copo grande – daqueles onde se bebe suco de laranja – de Cointreau na mão, escreve Dado.

“Dado Villa-Lobos: Memórias de um Legionário” mostra a rotina da banda de forma bastante realista e dura, mas, ao mesmo tempo, com muita afetividade. São histórias da Legião na estrada e no estúdio, misturadas com a vida particular do autor que está intrinsecamente ligada ao grupo.

A ideia de escrever o livro não partiu de Dado Villa-Lobos e, sim, do historiador Felipe Demier, um grande interessado pela trajetória do músico e da Legião. A obra foi escrita durante dois anos, contando também com a ajuda de outro historiador, o professor Romulo Mattos (PUC- RJ).

Logo na introdução do livro, Dado faz um retrato do dia fatídico da morte de Renato Russo e, entre outras coisas, fala de como recebeu a notícia, do assédio da imprensa, do contato com amigos e familiares e da cremação do artista.
Depois disso, o foco passa a ser a descrição da vida do próprio Dado Villa-Lobos. A sua infância em Bruxelas, na Bélgica, onde nasceu em 29 de junho de 1965, além das suas mudanças de países, por causa do trabalho de seu pai que era diplomata.

Assim, ele morou em Belgrado, na antiga Iugoslávia e hoje Sérvia, passou por Montevidéu e chegou em Brasília, pela primeira vez, aos 6 anos, onde permaneceu de 1971 a 1975.
Em seguida, seu pai é enviado para Paris. E é na capital francesa que Dado passaria por uma fase de delinquência infantil, praticando furtos de motocicletas e objetos de valor.
A propósito, foi com o roubo de um relógio que compraria uma de suas primeiras guitarras.

Capa do primeiro Lp da Legião Urbana

Primeiro Lp da Legião Urbana

Já com seus catorze anos, Dado retornaria à Brasília, em 1979. Aos 20, partiria rumo ao Rio de Janeiro, em 1985, onde gravaria o primeiro disco da Legião que levaria o mesmo nome da banda.
Esse Lp conquistou o disco de ouro e vendeu, em seu primeiro momento, cem mil cópias rapidamente. De lá para cá, ele acumula mais de um milhão de unidades vendidas.

A partir daí, a história do livro passa a se concentrar nos estúdios, nas viagens, nos shows e também na relação com o imprevisível Renato Russo.

A diferença de “Dado Villa-Lobos: Memórias de um Legionário” para outras obras já publicadas sobre a legião e o seu líder Renato Russo está no fato dela ser a primeira escrita por um ex-integrante da banda. Isso faz com que detalhes obscuros e curiosidades do grupo, ainda não revelados, venham à tona.

É bem provável, por exemplo, que muitas pessoas nem sabiam do sonho de Renato em se tornar empresário de uma boy band, e do quanto ele gostava do Menudo. Tanto que chegou a acompanhar uma excursão do grupo pelo Rio de Janeiro, em 1985, esteve no ônibus com os rapazes, indo até ao camarim de Ray, Roy, Robby, Rick e Charlie, durante o show deles no estádio São Januário.

Negrete, baixista da Legião

No alto, Negrete (Renato Rocha)

Já no tocante às questões controversas da Legião mencionadas no livro, e que se espalharam em diferentes versões ao longo dos anos, uma delas é o episódio da saída, em 1989, do baixista Negrete que foi encontrado morto no início do ano passado.

Não é que ele tenha pedido para sair do grupo ou porque tocava mal. Na verdade, a Legião precisava muito dele, porém, mesmo assim, o Renato decidiu tirá-lo da banda.

É que na época, o baixista havia comprado um sítio em Mendes, no sul Fluminense. E desde então, em virtude da distância que separava esse município do Rio de Janeiro, ele começou a aparecer cada vez menos para as gravações do disco “As Quatro Estações”, perdendo por completo o entrosamento com os companheiros da Legião.

O livro pretende realmente ser uma passada a limpo em toda a história da Legião Urbana, procurando esclarecer principalmente boatos sobre a separação do grupo, em 1987, e também a respeito da doença de Renato Russo que lhe tirou a vida, no ano de 1996.

A obra traz ainda explicação para os significados das músicas e para os nomes dos álbuns e, acima de tudo, mostra um retrato da política e da cultura entre o período de 1965 e 1996. Ou seja, a ditadura, a censura e toda a efervescência de um momento cultural que se eclodiu a partir do rock nacional dos anos 80.
Tudo é abordado quase que numa ordem cronológica dos acontecimentos, inclusive os problemas com a censura gerados pelo terceiro Lp do grupo, “Que país e esse”, de 1987. Duas de suas faixas tiveram execução proibida por algum tempo: “Conexão Amazônia” e “Faroeste Caboclo”.

Há também histórias de bastidores bem interessantes, como o caso da relação de amor e ódio que a Legião nutria pela música “Índios”.
Embora o Renato gostasse dela e a considerasse especial, ele não costumava tocá-la nos shows. Isso normalmente gerava algumas confusões, como a que ocorreu em Santos (SP), quando parte do público ficou revoltada e começou a gritar: “Filho da puta”.

Ao ouvir esse coro hostil, o Renato, que estava caminhando na direção do palco a fim de fazer o bis, voltou imediatamente para o camarim, dando por encerrada a apresentação. A plateia ficou ainda mais irritada, e o contratante do show reclamou junto ao empresário da banda, que nada pode fazer para amenizar a situação.

Esses são alguns dos relatos, entre outros, contidos em “Dado Villa-Lobos: Memórias de um Legionário”. É uma história que permanece viva graças a uma legião impressionante de fãs. Muitos destes, nascidos depois dessa época, foram e ainda continuam sendo atraídos pelo som, pelas letras significativas de Renato Russo e por uma banda que se transformou numa das mais veneradas e populares do rock brasileiro.

Referências:
Dado Villa-Lobos: memórias de um legionário. VILLA-LOBOS, Dado; DEMIER, Abranches Felipe; MATTOS, Costa Romulo. Rio de Janeiro-RJ: Mauad X, 2015. 256 p.
WIKIPEDIA. Dado Villa-Lobos.

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